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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Joãozinho “mente fértil”

A cara de lucidez era inédita. Chovia lá fora enquanto sentimentos misturavam-se a orvalhos e garoas. O cão nervoso; uma anciã percorrendo o solo umedecido pelo barro e folhas caídas desviavam seu olhar para o farol. Parei o carro. Uma pá retirada detrás da arvore cavava uma cova. Um corpo jogado. A anciã volta para a cabana enquanto fico a espreita observando.

 

Filmes de terror haviam me mostrado cenas semelhantes. Mas aquela era inédita. Um coelho recebendo o cortejo fúnebre de um ser humano a ponto de levar uma velha e judiada senhora através da chuva para enterrá-lo. Eu estava com cara de paisagem! Chorei sem saber por onde. O radio começava a tocar Chico Buarque. Gênio! Mestre! O maior dos maiores! Desliguei o radio para diminuir a concupiscência lagrimal.

 

Cheguei em casa atordoado pelo peito desprotegido. Uma senhora adocicou meus princípios mostrando todo o amor por um animal. E se fosse a  única companhia daquela pobre anciã? Devia ir até sua casa prestar ajuda?  Ou ficar torcendo que tudo se resolvesse? Voltei pra casa pensando na cova, na pá, e nas folhas sob o solo. Amanha será outro dia. Talvez devesse mudar a radio. Ouvir Caetano ou Toquinho. Ouvir algo mais alegre  que Chico. Ou simplesmente devesse dormir.

 

Na noite posterior àquela decidi retornar ao local do enterro. Minhas mãos suavam frio sem saber por que de tanto valor a um simples enterro de animal. Estacionei o carro iluminando a cova pelos raios de meu farol. A luz não estava clara como deveria. O farol estava sujo devido a noite imunda e pelas folhas velhas e úmidas grudadas a ele. Desci correndo. Ajoelhei-me e comecei a cavar com mãos e unhas.

 

Minha pressa levantava a terrível – mesmo que minúscula – hipótese de não ter sido um coelho. E se fosse uma pessoa? Meu deus! E se fosse um drible em minha percepção? E se a anciã tivesse me enganado com o coelho? Dentro deste terror continuei cavando em meio a folhas. Cães começaram a ladrar e corriam para minha direção! Voltei para o carro e trêmulo pus-me a chorar de forma copiosa. Tristeza. Muita tristeza invadiu meu peito. Acelerei em direção a minha casa. Dormi de imediato; sem banho, e sem trocar roupas também.

 

Um dia que amanhecia daquela forma prometia churrasco na atmosfera! Sempre gostei do cheiro de assado espraiando-se pela comunidade. Domingo de sol com crianças brincando e adultos preparando o ritual. Mulheres fazem o arroz e as saladas, algumas gostam de feijão, outras nem tanto. Homens no preparo do fogo e dos aperitivos enquanto elas fazem o chimarrão. Este sempre foi o modelo dos domingos; exceto pela noite de sexta-feira.

 

Aquele enterro continuava escrevendo parágrafos de horror em minha memória. Sentei no sofá cruzei as pernas e tentei ler trechos de Quintana. Saí para caminhar. Encontrei amigos fazendo churrasco. Fui convidado, oba! Após o almoço voltaria a pensar. Ganhei tempo entre amigos. José, Paulo e Toninho.

 

Éramos quatro jovens tentando a diversão ininterrupta. Contar ou não contar? Era a nova martelada em minha cabeça. Poderiam reagir com preocupação, mas também poderiam rir de minha imaginação estúpida. É! Estúpida mesmo, afinal de contas não passa de uma senhora tendo compaixão e amor por um animal (agora morto) de sua estima. 

Não poderia ela só atira-lo no mato?

 

Passei o resto do churrasco arranjando formas de contar, mas não contei. Não pude. Ou melhor, não consegui. O churrasco terminou quase a noitinha. Tinha que retornar. Optei pelo bosque - não que estivesse com vontade de passar novamente no local do enterro -, não era isso. Mas o caminho pelo bosque fora o preferido desde a infância!

 

Um regador! A velha retornou ao bosque e agora carregava um utensílio de molhar plantas! Será louca? Poderia ela estar fora de suas faculdades mentais? Acho que sim porque agora… Está querendo regar um cadáver de coelho! Voltei para o carro e fiquei na espreita. Apenas observando. Observando os movimentos da velha anciã.

 

O outro dia amanheceu com a cara mais de segunda-feira que uma segunda-feira pode imaginar. Fui correndo ao bosque e decidido! Hoje vou questionar aquela senhora. Vou sim. Mas como? Como poderia questionar algo que nem certeza tinha? Ela apareceu. Minhas pernas tremiam e sucumbiam aos criteriosos soluços de curiosidade. Mantinha desde a infância estes infames soluços em meio a crises de saber o que estava por ocorrer.

 

Veio a noite e com ela a caminhada da anciã junto de seu regador. – ela está regando o cadáver de um coelho!

 

– Oh, minha senhora! Isso está errado! Ela ouviu. Ouviu e veio em minha direção.

 

- O que houve agora garoto? Posso lhe ajudar?

 

- Eu? Tudo bem que a senhora é bem mais velha, mas daí a me chamar de menino…

 

- senhora? Eu? Sou homem! Me chamo Odacir! E você não deve ter mais de onze, talvez doze anos.

 

- Doze anos?!?!? Eu?!?!? Sou um adulto minha senhora! Ali está meu carro!

 

- Senhor! Sou homem e além do mais, eu sou o seu… E pare com as paranóias! Que carro? Estou vendo apenas uma bicicleta encostada na arvore que rego todas as noites em meu pátio!

 

– Aham! Agora peguei a senhora. Porque não admite que enlouqueceu a ponto de regar o cadáver de um coelho!

 

- Coelho? Eu plantei uma amoreira junto a essa arvore para terminar a experiência  que fiz com cruza de raízes. E sabe mais? Volte pra casa ou chamarei seus pais Joãozinho!

 

Corei meu rosto e vi que não adiantava mais mesmo; outra vez desmascarado sem piedade. Precisava usar disfarces mais convincentes.

 

João voltou para casa e encontrou sentado junto a mesa de centro seus pais e seu IRADO avô.

 

- Joãozinho mente fértil! Está proibido de ler contos policiais!

 

- mas pai…

 

- não tem “mas pai”, eles não são para sua idade!

 

Após o pedido de desculpas seguido de um “não vou fazer mais”, João  voltou para o quarto onde deitou e dormiu.

 

 

 

Um abraço

criado por poetacronista    12:57:55 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por Rodrigo — terça-feira, 20 de janeiro de 2009 @ 11:46:13

    S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!!! Muito bom mesmo!! abraços

  2. Comentário por melmais — terça-feira, 20 de janeiro de 2009 @ 20:19:49

    Saudades… saudades…

    Lindíssimo…

    Bjs.

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